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Retornando ao Centro - bate-papo com o Mestre

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Fechando o tema “Retornando ao Centro”, tivemos a alegria de receber o Mestre Zhihan, abade do Templo Tzong Kwan, para um bate-papo sobre a aplicação dos ensinamentos em situações cotidianas. O texto que segue é uma organização do que assimilei das sábias e compassivas palavras do Mestre, seguida da conclusão relacionada ao nosso tema. Tipos de meditadores Observando as facilidades e dificuldades que cada um experimenta com a meditação, podemos dividir os meditadores em dois tipos: os sonolentos e os agitados. Os sonolentos costumam ser pessoas envolvidas em trabalhos corporais que, ao parar e sentar, têm dificuldade para manter-se acordados. Os agitados mentalmente, que representam a maioria de nós, são pessoas envolvidas em atividade mental excessiva que, ao sentarem, não conseguem aquietar a mente. São pessoas ansiosas que costumam ficar planejando o que fazer. Seu desafio é aprender a focar no presente, pois deve estar claro que não há o que fazer no futuro, somente no a...

Retornando ao Centro - parte 3

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Em nossa realidade convencional baseada na dualidade, ou seja, condicionada à forma, como tornar o nosso olhar menos superficial de modo a enxergarmos a vida em sua profundidade? Como tocar a dimensão da não-forma aqui e agora, na realidade terrena? Duas das três características da realidade física apontadas por Buddha são a impermanência ( anicca ) e a interdependência ( anatman ). Sem precisar recorrer a nenhum método extrassensorial, somos capazes de observar como tudo no universo está em constante transformação e como nada é isolado, mas sim dependente da combinação de várias causas e condições. Ao observarmos a impermanência e a interdependência em operação, tocamos a realidade por trás da forma. A impermanência A existência compreende ciclos. Nascimento e morte estão representados nos vários ciclos do universo, desde o surgimento e desaparecimento de um elétron em milionésimos de segundo, até o surgimento e desaparecimento de galáxias. Um macroinstante é constituído de microinsta...

Retornando ao Centro - parte 2

Há no ser humano um impulso que o move na busca pelo sentido de sua existência. Intuitivamente, o homem percebe que a sua vida tem um significado maior dentro do todo e, assim, busca a sua conexão com a fonte. Basicamente, duas faculdades humanas são utilizadas para esse fim: a fé e a razão. Movidos pela fé , esse sentimento que nos faz crer em algo sem necessidade de uma comprovação racional, as pessoas são capazes de sacrifícios em nome de algo maior. Normalmente, a fé as leva ao encontro de uma doutrina religiosa, onde seus questionamentos existenciais barram em um dogma: a existência de uma figura onipotente, cujos mandamentos devem ser seguidos para se estar em conformidade com a vontade superior. As pessoas se tornam obedientes e assumem o pacto de servir a essa força maior a fim de receber a sua recompensa – um sistema de trocas. Dentro dessa dualidade (entidade superior X eu), não acontece o despertar, apenas uma acomodação espiritual. Não convencidos pelos dogmas religios...

Retornando ao Centro - parte 1

Bem-vindos! Após meses sem os nossos encontros, convém retomarmos alguns pontos: Podemos escolher viver nossas vidas de modo aleatório, sem uma compreensão profunda sobre nós mesmos e sobre como participamos ativamente da criação da nossa realidade. Como um pêndulo sendo jogado pra cá e pra lá, oscilando entre momentos de felicidade e momentos de tristeza, buscando a paz, porém sem saber como cultivá-la propriamente. Outra escolha é aprimorar o autoconhecimento, trazendo a luz da consciência para as nossas vidas. Muitos de nós temos lido bastante a respeito de ensinamentos filosóficos e espirituais, porém, sem aplicação na vida cotidiana, esse acúmulo de conhecimentos se torna uma bagagem desnecessária. É preciso aplicá-los para que se convertam em sabedoria e gerem transformações. O mais importante é desenvolver um olhar inteligente sobre a vida a ser aplicado momento a momento. Só assim podemos remover o véu de Maya (ilusão) e enxergar a realidade como ela é, e não como é projetada ...

Pedra ou Ouro?

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Há exatamente um ano atrás, o Mestre Pu Hsien, fundador do Templo Tzong Kwan, fez uma pergunta ao mesmo tempo óbvia e curiosa: – Se diante de você houver um pedaço de ouro e outro de pedra, o que você escolhe? A resposta, claro, é ouro. Mesmo sabendo que o ouro é muito mais valioso, todos nós continuamos a escolher pedra ao invés de ouro quando desperdiçamos as oportunidades valiosas da vida por conta de nossas condutas inconsequentes. Geramos compulsivamente medo, raiva, inveja, preocupação, cobiça, ódio – pedra ao invés de ouro. Fiquei me perguntando o porquê de optarmos por uma coisa quando queremos outra. Será que queremos de verdade o ouro? Será que sabemos o que é o ouro em nossas vidas? E se sabemos o que queremos, por que cargas d’água continuamos percorrendo o caminho das pedras na esperança de encontrar ouro? É como plantar sementes de laranja esperando colher banana. O que seria ouro para nós? Um barril de chocolate, uma mansão, um carro importado, iates? Sa...

Observar por si mesmo (sem eu mesmo)

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Observar exige disposição. Sem grandes dotes, podemos observar no mundo a degradação ocorrendo por meio da mente predatória presente nos líderes, organizações, mídia e, sendo honestos, em nós mesmos. O rumo que as coisas vão tomando por meio da ação inconsciente acarreta desgraças e sofrimentos, diante disso, procuramos encontrar um caminho que nos leve em direção à felicidade. Procuramos por fórmulas, vemos pessoas que deram certo e as elegemos como modelos. Observamos o que elas fazem de diferente e achamos que podemos seguir os mesmos passos. Procuramos respostas e vemos que outros já as responderam antes. Quando tomamos essas respostas como nossas, simplesmente não serve, não é autêntico. Isso não produz insight. O insight liberta. Aceitar e seguir respostas prontas atrofia a inteligência. Em algum momento, percebemos que não podemos trilhar o mesmo caminho dos bem sucedidos e dos iluminados, pois nós não somos eles. Muitos tentam propor o caminho para a libertação, mas se trata de...

A Chave da Questão

No budismo, questionar é uma ferramenta fundamental. Muitas doutrinas não dão espaço para questionamentos, não permitindo que os seguidores tenham dúvidas a respeito da absolutez dos ensinamentos. Já Buda, disse o contrário: "Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o". O questionamento abre a mente para inúmeras possibilidades, enquanto a certeza fecha. Uma questão que incite a investigação criativa é muito melhor do que uma resposta com argumentos que ponham fim a uma busca autêntica.  Nós, seres humanos, costumamos confiar de...