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Caminho e caminhos

Quando se está num caminho, é impossível estar em outro. Por mais que vários caminhos se mostrem possíveis, se seguir um deles, estará abandonando o caminho original. Há um caminho que o coração reconhece e que leva à plenitude do ser. Não se trata na verdade de um caminho, mas O Caminho.

A todo momento fazemos escolhas, mesmo que automáticas. A mente reconhece múltiplas alternativas e as analisa com base na distinção entre bom e ruim, questionando qual caminho seguir. É importante se ter consciência de que os apontamentos da mente discriminatória não tiram o valor da verdade por trás das aparências, da totalidade por trás dos fragmentos. As coisas são o que são, independente do nosso julgamento.

Se o caminho do dharma (lei dos fenômenos) for abandonado através de uma escolha, saiba que não o abandonará realmente, mas apenas ilusoriamente através da mente. Para voltar à origem, será necessário desapegar-se das falsas verdades e optar pela não-mente, pela não-fragmentação de caminhos. Reconheça que as coisas e fenômenos são insubstanciais, que tudo está integrado e, por isso, não existe uma divisão real. Tudo é uma unidade. A ideia de que tudo está separado é uma óptica mental. É preciso transcender a mente para reconhecer que o eu, os outros, o nome que temos e o que damos às coisas como parcelas do Universo são apenas conveniências. A consciência iluminada do Dào, o caminho uno e vazio, não faz essa distinção. Eu sou o que os outros são, o que os astros e todos os fenômenos são: manifestações do Dào.

O Dào é como o lótus, que preserva sua beleza em meio ao lodo.
O Dào é a confiança espiritual em meio às provações duras da vida.
O Dào é a decisão consciente apesar das tentações inconscientes.
O Dào é ouvir a voz do coração quando tudo leva a ouvir a mente.
O Dào é a certeza intuitiva, mesmo que teoricamente improvável.
O Dào é permanecer centrado e sereno em meio ao caos.
O Dào é valorizar o sublime acima dos valores aparentes.
O Dào é e não é.

Marco Moura

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